O campo está mais feminino



Lilica, Sarita, Josiane, Mariana e Consolata. Jovens, criativas e corajosas, elas são as mulheres que Globo Rural escolheu para ilustrar a pesquisa sobre o avanço feminino no campo, um universo que até há pouco tempo era dominado pelos homens. As mulheres desta reportagem ocupam hoje o comando de grandes fazendas e empresas, tendência apontada na 7ª Pesquisa da Associação Brasileira de Marketing Rural e Agronegócio (ABMRA)*.  O histórico do levantamento mostra que, em 2013, as mulheres ocupavam postos de comando em apenas 10% das propriedades rurais do país, número que saltou para 31% em 2017. E a presença feminina cresceu não apenas nas fazendas, mas em todos os segmentos, como empresas de insumos e máquinas, laboratórios, indústrias de alimentos, tradings e consultorias. 

Tome-se o exemplo de Sarita Junqueira Rodas, de 35 anos. Seu pai, Fábio Rodas, morreu repentinamente em 2008, deixando 13 fazendas, quando ela tinha 25 anos. “Não estava preparada. Foi um choque. Meu objetivo era a faculdade de Direito”, ela conta. Sarita cursou Direito e, durante cinco anos, frequentou as fazendas para conhecer o seu funcionamento.

“O maior obstáculo foi a falta de abertura para eu, como mulher, mostrar do que era e sou capaz. Enfrentei e venci os desafios e dificuldades que fazem alguns homens recuar”, diz Sarita. O Grupo Rodas, com 518 empregados, colheu 4,3 milhões de caixas de laranja no ano passado.

Liliana Teles de Menezes Almeida, a Lilica, de 44 anos, teve mais sorte. Desde criança, ela acompanhava o pai, o pecuarista Flavio Teles de Menezes,  72, na fazenda. “Ele sempre me incentivou. Aos 15 anos, ganhei um cavalo para concorrer em provas hípicas e cheguei a conquistar o título de campeã brasileira em adestramento clássico”, diz Lilica, que comanda hoje um dos mais famosos criatórios de gado nelore do país.

Josiane Cirilo, de 34 anos, transformou o antigo laticínio de seu pai em queijaria descolada, usando os conhecimentos adquiridos em estágios na Califórnia (EUA). Ela trocou o nome da empresa de Latícínios Camanducaia para Queijaria Finabel e inaugurou uma loja exclusiva para a venda dos produtos. “Eliminamos a intermediação”, diz a empresária de cabelos longos e sorriso farto. Agora, ela quer expandir os negócios.

Esse avanço feminino em cargos de gerência se deve à facilidade das mulheres de absorver novas tecnologias e ao fato de uma imensa parcela possuir curso superior e ainda encarar a lida no campo como carreira. De calças jeans ou de montaria, bota de equitação, maquiagem leve e perfume, Consolata Piastrella pode ser vista no meio de um árido confinamento vistoriando o gado. Sua empresa de rastreabilidade monitora  400 mil bois por ano.

Também empresária do ramo pecuário, Mariana Beckhauser, de 37 anos, assumiu recentemente a presidência da Beckhauser, tradicional empresa paranaense, substituindo o pai, José Carlos, que resolveu se aposentar. Ela produz equipamentos de contenção e pesagem bovina, comandando seis diretores e 70 funcionários. Nas páginas seguintes, você vai conhecer mais sobre a história de cada uma delas.


Fazendeira apaixonada

Quando criança, ela carregava a pasta do pai nos compromissos agropecuários dele. Aos 15 anos, ganhou um cavalo para concorrer em provas hípicas. Participava das competições de salto e adestramento clássico e, nesta segunda modalidade, conquistou um título brasileiro. Filha de Flavio Teles de Menezes, de 72 anos, pecuarista tradicional, Liliana Teles de Menezes Almeida, a Lilica, 44 anos e três filhos, encontrou poucas travas para tornar-se uma fazendeira respeitada. “Meu pai abriu todas as portas, sem dúvida.”

“Fiquei apaixonada por fazendas. Acompanho integralmente o dia a dia da criação: vacina, registro, acasalamento. Foi esse aprendizado constante que me facilitou gerenciar, junto de meu marido, Fábio Almeida, um dos maiores projetos da criação de nelore, que é o resgate da genética do touro Golias, morto há muitos anos”, afirma.

Em hipótese alguma, porém, Lilica deixa de reconhecer os fatores limitantes da atuação da mulher no campo. “Confesso que tive jogo de cintura para enfrentar e vencer o machismo, por exemplo, que é real, e outras dificuldades. Mas tem mulheres que sofreram muito com os preconceitos.” As pesquisas mostraram – e Lilica concorda – que as mulheres do agronegócio romperam diversas barreiras do preconceito masculino e dos estereótipos. “Gestoras, motivadas e valentes, elas enfrentam tudo e ocupam cada vez mais espaço”, diz.

De outro lado, a capacidade e a vontade feminina de adaptar-se às tecnologias que revolucionaram o agro são um diferencial. “O campo ganhou produtividade.”

Lilica conduz um trabalho de êxito que permitiu à centenária propriedade da família, a Fazenda Água Branca, localizada em Birigui (SP), gravar a marca na alta seleção de nelore direcionada à produção de carne gourmet. É o Projeto Nelore do Golias, que resgatou a linhagem do touro importado da Índia em 1962 junto a outros genearcas célebres.

Para Lilica, uma das contribuições relevantes do seu trabalho na Água Branca foi a agregação de valor. “Não vendemos mais commodities e conseguimos preços diferenciados para a carne que produzimos. Como, além da genética Golias, praticamos a pecuária comercial em outras fazendas do grupo, estamos preparados para o futuro, que vai demandar muita carne.”


A rainha da laranja

Sarita Junqueira Rodas tinha apenas 25 anos quando perdeu o pai, Fábio Rodas, que comandava 13 propriedades espalhadas pelos Estados de São Paulo e Mato Grosso do Sul. A família a escolheu para  ocupar a liderança. “Foi um choque. Eu não estava preparada e minha intenção era cursar Direito e ser uma boa advogada”, lembra.  Ao longo de cinco anos, ela estudou as leis e realizou treinamentos na empresa. “Além do aprendizado, tinha como objetivo estreitar a relação com os funcionários. É que a humanização sempre foi um compromisso do meu pai.  Entendo que ser competitivo está relacionado ao trabalho em equipe”, diz.

Sarita lembra do principal obstáculo daquela época difícil. “Foi a falta de abertura para que eu, enquanto mulher, mostrasse do que era capaz. Enfrentei e venci desafios e dificuldades que fazem alguns homens recuar diante deles”, diz a empresária.

Ela ressalta, no entanto, que o apoio incondicional da família e da equipe de funcionários lhe deu suporte para assumir o cargo máximo. “A confiança deles foi fundamental. Ficaria impossível assumir uma responsabilidade gigantesca dessas”, afirma. As 13 fazendas empregam 518 trabalhadores efetivos e mais 1.500 nos períodos de safra. O grupo produziu 4,3 milhões de caixas de laranja no ano passado – um volume expressivo. A laranja é o forte do Grupo Junqueira Rodas, que também cultiva cana e cria gado de corte.

Sarita reflete o que as pesquisas constataram: “Meu olho sempre esteve aberto para a tecnologia. Formas mais assertivas de gestão, como metas e indicadores de resultados por pessoas, foram implantadas e os resultados são positivos”.


Sintonia com o Brasil

Mariana Beckhauser, de 37 anos, assumiu neste ano a presidência da Beckhauser, empresa paranaense fabricante de equipamentos de contenção e pesagem de bovinos, presente no mercado desde 1970. Ela comanda seis diretores, 70 funcionários e  substitui o pai, José Carlos, de 63 anos, que aposentou.

Mariana, que até então era responsável pelo marketing da Beckhauser, quer aumentar a sinergia da empresa com a sociedade brasileira. “O lucro pelo lucro não faz sentido. Práticas sustentáveis, como as que não causam danos ao meio ambiente e os cuidados com o bem-estar do gado, são cultivadas e respeitadas por nós e serão consolidadas.”

Ela tem um compromisso sólido com o Brasil e até suas preferências culturais apontam nesse sentido. Apaixonada pela beleza do país, suas viagens incluem o Nordeste, o Pantanal, a Amazônia.  Musicalmente falando, o lado brasileiro igualmente aflora. “Fico feliz ouvindo Milton, Caetano, Luiz Gonzaga e o samba de raiz”, afirma.

Mariana aposta em uma pecuária consciente de seu papel como produtora de alimentos para o mundo. A empresária tem opinião um pouco distinta das outras mulheres em relação às dificuldades encontradas à frente da empresa. Ela acha que o preconceito não depende do gênero, e sim da formação. Se não forem preparados, o homem ou a mulher podem manifestar preconceitos.


"Nascida no tacho de leite"

Nasci dentro de um tacho de leite.” Exagero? Josiane Maiara Cirilo Carvalho de Oliveira Vargas Cassalho, de 34 anos, responde que não. Desde criança, sempre ajudou o pai, Abel Carvalho de Oliveira, de 68, no laticínio montado por ele às margens da Rodovia Fernão Dias, no município mineiro de Camanducaia. A menina esperava o desembarque do leite na plataforma e acompanhava o envaze na pequena fábrica.

O pai, então bancário, havia arrendado o laticínio em 1983. Chegou a recolher entre 10.000 e 20.000 litros de leite ao dia. Vendia a produção no mercado atacadista. O lucro era baixo e oscilava bastante, o que é uma característica secular da pecuária leiteira no Brasil.

Josiane nasceu em Cambuí, município ali perto. Foi a São Paulo, cursou administração no Mackenzie e pós-graduação na USP com o tema “Gestão, marketing e comunicação”.

Tomou as rédeas do negócio e a primeira medida foi trocar o  nome da empresa. Era Laticínios Camanducaia. Virou Queijaria Finabel. A mudança não esteve limitada à denominação da empresa. Além disso, não foi tímida, pois Josiane convenceu o pai a inaugurar uma loja própria ao lado do laticínio e negociar ali os diferentes tipos de queijo. A proposta era eliminar a intermediação e negociar diretamente com o consumidor. Deu certo.

Não bastou. Sempre apoiada por Abel, ela investiu na divulgação da marca e partiu no encalço do consumidor. Uma outra medida acertada foi levar os produtos para feiras descoladas da capital de São Paulo, como a da Vila Madalena. Atualmente, até umas aulas Josiane ministra por lá, e muita gente de São Paulo vai buscar os queijos em Camanducaia. A Finabel não faz entrega.

A Queijaria Finabel produz e negocia na loja queijos tradicionais e muito saborosos. Virou tradição o frescal, o meia-cura (que também é temperado com alecrim, cominho e goiaba), a muçarela, o provolone, a ricota, o parmesão e o requeijão. A manteiga, deliciosa, foi procurada por quatro viajantes no dia da reportagem. Todos saíram de mãos vazias e contrariados. É que a iguaria tinha acabado no dia anterior.


Elegância na lida

Loira, alta (1,80 metro) e bonita, Consolata Piastrella lembra uma modelo. Há fazendas nas quais os funcionários até brincam: lá vem a miss Sisbov (sigla do sistema federal de rastreabilidade de bovinos). Ela mantém a elegância no vestir enquanto vistoria os animais em um confinamento gigantesco, da Família Merola, em Santa Helena de Goiás, a 203 quilômetros de Goiânia. Para se ter ideia da dimensão do trabalho da zootecnista, lá são engordados 70 mil bois por ano. É um dos maiores do Brasil. Há dias em que 600 bois são avaliados por Consolata e sua equipe.

“Gosto de vestir calças jeans e bota de equitação. Botina, não. Uso mais calça de montaria e nunca me dirijo às fazendas sem maquiagem e perfume discretos”, diz ela, que não revela a idade. Consolata tem sangue italiano, nasceu no Piauí, cursou faculdade no Tocantins e sua função é o retrato fiel da modernização da pecuária.

Sua empresa, a Piastrella Rastreabilidade Animal, atua em 86 propriedades (só confinamentos são 16) espalhadas pelos Estados de Goiás, Tocantins, Mato Grosso, São Paulo, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais. São 400 mil animais vistoriados.

Em algumas fazendas, a carne certificada tem por destino a União Europeia. “Eu viro o boi do avesso”, enfatiza Consolata. O sistema de rastreabilidade é importante na engorda, pois ajuda os produtores a adequar seus sistemas de produção aos padrões cobrados por mercados exigentes, como o de carnes nobres da Cota Hilton, da UE.

A empresa de Consolata mantém seis funcionários na sede, em Goiânia, e outros comissionados nas diversas regiões do país.

“Além dos benefícios diretos, como bônus dos frigoríficos, a rastreabilidade é um espelho de todo o sistema produtivo da fazenda”, afirma a zootecnista. Tudo é mensurado, desde dieta, ganho de peso, taxa de mortalidade e natalidade e muitos outros indicadores do rebanho. “É um caminho sem volta”, diz.

Consolata lembra que na faculdade de zootecnia, no Tocantins, uma professora havia sugerido a ela seguir a carreira de modelo. “Preferi a zootecnia, sem jamais descuidar da beleza”, afirma.

 

Texto: Sebastião Nascimento - Fotos: Rogério Albuquerque e Cristiano Borges / Revista Globo Rural




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